Regionalismo no Contexto das Eleições Brasileiras

A entrevista do Pocket Talks desta semana é com a professora do Centro de Relações Internacionais Elena Lazarou. Doutora por Cambridge, Lazarou é professora e pesquisadora da FGV desde 2010, concentrando-se em temas tais quais as relações entre a União Europeia e o Brasil, o impacto da crise econômica e financeira do Euro, e as relações externas da União Europeia, o desempenho de think tanks, entre outros. No contexto das eleições presidenciais de 2014, convidamos a professora Elena para responder a algumas perguntas sobre o futuro da relação entre o Brasil e a União Europeia.

 

Pergunta: Tendo em vista os dois atuais candidatos à Presidência da República, quais são as principais dificuldades e oportunidades a serem consideradas nas relações brasileiras com a União Europeia?

Resposta: O principal obstáculo na relação Brasil-UE é a complexidade envolvida na conclusão de um acordo comercial bilateral entre o bloco europeu e o Mercosul. A assinatura deste acordo seria um fator significativo no aumento da qualidade e quantidade das exportações brasileiras para a Europa e, inclusive, importaria em crescimento da competitividade do mercado brasileiro. Dessa forma, seria um desafio ainda maior garantir através do acordo: o compartilhamento de tecnologia; um regime jurídico de propriedade intelectual mais favorável; e o aumento de investimentos externos por parte da UE. Tais considerações abordam ainda a necessidade de redução do Custo Brasil, uma vez que seu elevado valor afeta diretamente os investimentos e relações comerciais entre Brasil-UE.

A dificuldade iminente nesse assunto é gerenciar o tema e buscar um consenso dos termos do acordo entre os membros do Mercosul, já que essa pauta diz respeito ao futuro do próprio bloco e às relações de seus integrantes uns com os outros. O próximo presidente terá que refletir profundamente sobre quais mudanças serão necessárias se o Mercosul sobreviver e de que modo se dará a implementação destas com os demais presidentes Sul-Americanos.

Além de questões relativas à comércio e investimentos, há espaço para o desenvolvimento de relações entre o Brasil e a UE em fóruns multilaterais em temas como: mudanças climáticas; terrorismo; saúde e prevenção de doenças; ajuda humanitária; redução da pobreza e da desigualdade social; e desenvolvimento. Vale ressalvar que alguns passos foram dados nesta direção, porém, mais ações precisam ser debatidas.

 

Pergunta: Qual dos dois candidatos está mais suscetível a concluir um acordo entre Mercosul e UE?

Resposta: Conforme já mencionado, a conclusão de um acordo não depende somente do Brasil, mas também é influenciada pelo grau de coesão em ambas as regiões, assim como da capacidade de produzir um acordo que resguarde os interesses dos Estados-Membros dos dois blocos regionais. Ressalto aqui que há países a favor e contra a formalização de um acordo bilateral em ambos os lados.

Dito isso, acredito que o candidato mais suscetível a firmar um acordo, será aquele que se engajar em uma séria discussão relativa à quais são os objetivos futuros do Mercosul e de que modo eles devem ser estruturados em parceria com os demais integrantes do bloco. Certamente isso significará um comprometimento brasileiro considerável para com o projeto de integração regional e com a assunção de responsabilidades financeiras e normativas para sua concretização. O atual cenário econômico brasileiro, no entanto, não torna fácil para nenhum dos candidatos tal comprometimento. Portanto, eu diria que o candidato com estratégias macroeconômicas mais eficazes para o Brasil é quem tem potencial para se engajar com o projeto do Mercosul e, consequentemente, será o mais provável a concluir um acordo.

 

Pergunta: Você acredita que haverá qualquer mudança na forma como o Brasil se comporta em relação à abordagem da integração regional?

Resposta: A cooperação regional na América do Sul e a proximidade com os países vizinhos continuarão sendo o ponto-chave tanto da politica externa brasileira quanto de sua retórica. Eu digo cooperação, porque integração ainda esperará certo tempo, uma vez que implica em níveis mais profundos de comprometimento. Minha impressão é de que a prioridade atual é lidar com as dificuldades econômicas brasileiras em curto prazo, ao passo que se dedicar à integração regional significa aumentar o comprometimento com um arcabouço normativo e de responsabilidades vinculantes que restringem os níveis de soberania em maior ou menor grau. Portanto, acredito que o Brasil continuará reproduzindo o que tem feito nos últimos anos: irá promover integração física, ou seja, infraestrutura e desenvolvimento, porém deixará, por enquanto, a integração normativa de lado.

 

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